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Uma reflexão sobre recrutamento, carreira, integridade e ética.

Nem toda oportunidade é crescimento!

Estamos atualmente em um mercado cada vez mais dinâmico, em que novas vagas surgem diariamente, empresas disputam talentos e profissionais recebem abordagens constantes através do LinkedIn, indicações e processos seletivos.

Nesse cenário mudar de emprego passou a ser visto, muitas vezes, como sinônimo de evolução profissional. Afinal, quem não gostaria de receber uma proposta mais atraente, assumir um cargo maior ou conquistar uma remuneração melhor?

Mas existe uma reflexão importante que nem sempre é feita: toda oportunidade realmente representa um avanço na carreira?

Da mesma forma que cabe ao profissional avaliar suas decisões, também existe uma responsabilidade ética por parte de quem atua recrutando e atraindo talentos. Afinal, até que ponto é saudável incentivar uma mudança quando o profissional ainda está construindo resultados, consolidando uma promoção recente ou amadurecendo uma etapa importante da sua trajetória? Foi justamente sobre isso que comecei a refletir recentemente.

É neste ponto que a maturidade se prova fundamental: nos faz refletir sobre pequenos gestos que, muitas vezes, podem impactar profundamente a vida de um profissional.

Quem atua com recrutamento sabe que o que mais existe, são profissionais ansiosos para trocar de emprego. E isso dá por diferentes motivos:

Talvez como uma forma de resolver uma questão que poderia ser solucionada com a ajuda de um Coaching Profissional;

Fugir rapidamente de situações e desafios que poderiam ser resolvidos por meio do aprimoramento de uma competência técnica ou comportamental;

Sentir insegurança em relação ao futuro e decidir deixar uma empresa, sem sequer encerrar seu ciclo de entrega;

Buscar uma remuneração melhor, mesmo colocando em risco sua estabilidade profissional e a construção da sua trajetória


Em vários desses motivos observo algo muito importante: que o candidato muitas vezes “troca de casa, mas o problema persiste”.

Mas como saber a hora certa de mudar?

Essa é uma pergunta que tenho me feito cada vez mais ao longo dos anos trabalhando com carreiras, recrutamento executivo e desenvolvimento profissional.

Recentemente, realizamos a triagem de candidatos para uma vaga que estamos conduzindo na We4You, e recebi o currículo de uma profissional extremamente qualificada. Formação consistente, experiências relevantes, boa trajetória. No entanto, havia um detalhe: ela estava há apenas seis meses na empresa atual.

Meu primeiro pensamento foi: "Não dá." Não porque ela não fosse competente. Pelo contrário, na minha visão ética, aquele ainda não era o momento certo para ela sair. Era o momento de consolidar entregas, fortalecer sua reputação interna, ampliar resultados e construir uma história mais sólida naquela organização.

Em outra situação, me deparei com profissionais recém-promovidos, assumindo novos desafios e iniciando uma fase importante de crescimento. Poderiam ser excelentes candidatos para uma nova oportunidade? Sem dúvida. Mas também poderiam estar interrompendo um ciclo valioso de desenvolvimento que acabara de começar.

E é justamente aí que surge um dilema pouco discutido no mercado: “A importância da Ética de um Headhunter, que vai além de apenas preencher vagas”.

Existe uma questão ainda mais delicada quando falamos sobre recrutamento executivo: o conflito de interesses inerente à própria profissão.

Na maioria dos modelos de contratação, o Headhunter é remunerado quando uma posição é preenchida. Em outras palavras, existe um incentivo natural para que a movimentação aconteça. Mas acredito que o verdadeiro valor de um profissional de recrutamento não está na quantidade de vagas fechadas, e sim na qualidade das decisões que ajuda a construir.

O verdadeiro teste ético acontece quando o recrutador percebe que poderia conduzir um profissional para uma nova oportunidade, mas entende que aquela mudança talvez não seja a melhor decisão para sua carreira naquele momento.

Nem sempre o candidato está pronto para dar o próximo passo. E reconhecer isso exige maturidade, experiência e, principalmente, responsabilidade profissional.

Muitas vezes, receber uma proposta de emprego gera uma sensação imediata de valorização. Afinal, ser procurado pelo mercado é algo positivo. Porém, existe uma diferença importante entre estar sendo procurado, estar preparado para mudar e estar diante de uma oportunidade realmente estratégica.

Nem toda abordagem representa um convite para uma evolução profissional. Algumas vezes, ela representa apenas uma oportunidade circunstancial.

É nesse momento que o papel consultivo do Headhunter se torna fundamental. Seu trabalho não deveria ser apenas apresentar uma vaga, mas ajudar o profissional a refletir sobre o impacto daquela decisão em sua trajetória de longo prazo. Afinal, uma carreira sólida não é construída por movimentos rápidos e sucessivos, mas por escolhas consistentes ao longo do tempo.

Da mesma forma, é importante reconhecer que a responsabilidade pela decisão não pertence apenas ao recrutador.

O profissional também precisa desenvolver a capacidade de avaliar suas próprias motivações antes de aceitar uma nova proposta.

Algumas perguntas podem ajudar nesse processo:

Estou buscando crescimento ou apenas tentando fugir de uma situação desconfortável?

Já entreguei os resultados que me propus a construir na posição atual?

Estou encerrando um ciclo ou interrompendo um processo importante de desenvolvimento?

Essa mudança contribui para meus objetivos de longo prazo ou apenas resolve uma necessidade imediata?


Ao longo da minha trajetória acompanhando profissionais, percebi que muitos dos desafios que motivam uma mudança de emprego não desaparecem com a troca de empresa.

Problemas relacionados à gestão de conflitos, comunicação, insegurança profissional, posicionamento de carreira ou desenvolvimento de competências frequentemente acompanham o profissional para a próxima organização.

Por isso, antes de mudar de empresa, talvez seja importante refletir se o problema está realmente no ambiente ou se existe algo que precisa ser trabalhado individualmente.

Em muitos casos, o profissional troca de empresa, mas continua convivendo com os mesmos obstáculos que já enfrentava anteriormente.

Quando falamos sobre ética na contratação, normalmente pensamos nas responsabilidades das empresas. No entanto, acredito que essa discussão também precisa envolver recrutadores, consultores de carreira e os próprios profissionais.

Um bom Headhunter não deveria ser apenas alguém que conecta empresas e candidatos. Deve ser alguém capaz de compreender pessoas, trajetórias, ciclos profissionais e impactos de longo prazo.

Isso significa reconhecer que nem toda oportunidade representa crescimento. Que nem toda proposta representa evolução. E que, em alguns momentos, permanecer onde se está pode ser a decisão mais inteligente para a construção de uma carreira sólida e sustentável.

Talvez a pergunta mais importante não seja: "Qual é a próxima oportunidade?"

Mas sim: "Essa oportunidade contribui para a história profissional que desejo construir?"

Porque carreiras extraordinárias não são construídas apenas pelas oportunidades que aceitamos, mas também pelas oportunidades que escolhemos recusar.

Christianne Sauá Fundadora/Diretora